25/10/08
SOMOS DEMITIDOS DO BB - Canto de protesto - I

SOMOS DEMITIDOS DO BB
Rock ou blue em Lá maior, composta de retalhos de músicas que ouvimos e cantamos na juventude, cinqüentões e cinqüentonas hoje. Recursos de gravação e áudio precários, som de rádio AM, visual do powerpoint 95/97, resultou no "audiovisual" (podemos chamar assim?) "Somos Demitidos do BB, Canto de protesto" - para ver e ouvir, links favoritos, à direita do blog - semelhante aos escassos e precários recursos que tivemos para defender nossos empregos, plano de saúde, pecúlio, empréstimo imobiliário e aposentadoria, nossas vidas e famílias. Desconsiderando o "valor artístico ou poético da obra", vemos importante a letra, conta a saga dos demitidos do BB, canção-resumo que agora analisamos e interpretamos.
Somos demitidos do BB, nos apresentamos prá você
temos nossa história prá contar, toda a verdade restaurar
disseram que aderimos ao tal de PDV,
seria voluntário prá sociedade ver
mentiram, coagiram, torturas desmedidas,
ao demitir roubaram nossas vidas.
Fomos demitidos por iniciativa, necessidade e vontade do BB, em farsas montadas para atender aos interesses da empresa e do governo de plantão, diferentes planos, programas de desligamento, demissão, incentivada ou voluntária: PDI (1990 a 1992), PDV (1995) e PAQ (1996 até hoje). Por isto, poderíamos nos considerar pedeístas, pedevistas, paquistas ou penabundistas (demissões arbitrárias, 1997).
FOMOS DEMITIDOS PELO BB, responsabilidade DO BB E DO GOVERNO FEDERAL, aproximadamente 56.000 DEMITIDOS DO BB, assim nos apresentamos para você e para a sociedade, não nos conhece, quantos somos, quando e como fomos demitidos, nem nossas histórias.
Temos muitas histórias para contar, algumas felizes da época em que trabalhávamos com dedicação e carinho num Banco do Brasil social e democrático, que levava o crédito rural para todos os confins deste país, assim empréstimos para micro, pequenas empresas, atendimento a aposentados, enfim, servindo produtos e serviços bancários para todos os brasileiros, em lugares onde nenhum banco privado cogitava ir, não teriam lucro. Tempos de integração do BB e seus funcionários, "seu maior patrimônio", com as comunidades. Porém, chegou o neoliberalismo, a modernidade, as privatizações e demissões, tempos de vingança e ódio.
A partir daí, as histórias são dramáticas, pessoas e famílias destruídas por causa das demissões abusivas. Depressão, alcoolismo, doenças, separação, ingredientes amargos que acabaram em suicídios ou dependência à drogas, solidão, descrédito, desesperança, mais mortes.
Depois de muito tempo, fomos descobrindo a verdade histórica, a ilusão, a farsa, os métodos utilizados, as causas políticas e econômicas das demissões, o planejamento maquiavélico, os objetivos reais, o "DEMITIR PARA ROUBAR", e com a pilhagem sanear o BB e a PREVI. Percebemos os crimes, a irresponsabilidade, inconseqüência e desumanidade dos dirigentes e políticos, com a participação direta e vingativa de FHC. Temos nossas histórias para contar, nunca foram contadas, porque a mídia, regiamente paga, sempre contou as mentiras e ilusões convenientes ao poder público. Referencial de demissão, o PDV - Programa de Demissão Voluntária - foi uma farsa, de voluntário teve só o nome. Adesões forçadas, sob muitas ameaças, transferências arbitrárias, quem não aceitasse seria demitido por justa causa, ou a demissão por causa de dívidas.
Princípios e conceitos morais dos funcionários foram usados para induzi-los às demissões, contradisseram família x rejeição, união x separação, elegibilidade x indicação, disponibilidade x renúncia, honestidade x injúria, competência x competitividade, estabilidade x empregabilidade, tradição x modernidade. Coação, terror, tortura psicológica, tudo planejado e orientado por especialistas, empresas e doutores contratados para baixar a auto-estima das vítimas, a obterem as "adesões voluntárias" ao PDV. Desvirtuaram virtudes coletivas, exacerbaram defeitos individuais. Fomos chamados de marajás e vagabundos por presidentes da república e por ministros de estado, políticos e funcionários do BB mostraram seus espelhos, folhas de pagamento realmente polpudas e imerecidas, tudo com o objetivo de desmoralizar-nos junto ao público. Depois, divulgaram à sociedade que teríamos recebido "boladas" milionárias para pedirmos, "espontaneamente", a demissão. Resultado das mentiras e desinformação publicadas pelas telinhas e páginas amarelas das revistas de edição nacional, alguns cidadãos consideraram absurdos os valores supostamente recebidos pelos demitidos, chamaram-nos, também, de marajás e vagabundos.
A sociedade viu uma voluntariedade que não existiu, fortunas que não foram pagas pelo BB, mas foram roubadas pela PREVI, coagiram, depois mentiram para a sociedade ver e aceitar. Burlaram a legislação trabalhista, esconderam normas internas do BB que integravam o acordo coletivo e impediam demissões imotivadas. Distribuíram cartas confidenciais aos gerentes, chefes e superintendentes autorizando "demitir quem quisesse, ao bel prazer".
Disseram, inicialmente, que o número de demissões seria somente o necessário para uma pretensa reforma administrativa, mas quando surgiu o número real, 40.000 demissões para atingir objetivos do plano, pagar as dívidas do BB, correram para desmentir a verdade. Usaram terríveis armas psicológicas para abater e forçar as demissões, evidente que desses traumas adviriam reações, suicídios - 28 registrados -, e mortes, várias dentro do BB (ataques cardíacos, AVC). Mas tudo foi considerado normal e "estatístico" pelo diretor de Recursos Humanos do BB, João Batista de Camargo afirmaria que os números estavam dentro da média considerada normal para essas ocorrências: 10 casos anuais para um universo de 100.000 empregados (O Globo, 22/06/1995).
Na "Folha de São Paulo", 30/07/1995, um artigo do Jornalista Clóvis Rossi intitulado "Enxugar e matar", dizia que a tensão funcional que vinha se acentuando desde 1994 criara uma situação de extrema anormalidade. Relatava o articulista vários casos de suicídios ocorridos desde então, situações que classificou de extrema dramaticidade e colocou em questão a política de recursos humanos da empresa, concluindo: "Enxugar quadros é sempre doloroso, mas às vezes necessário. Levar parte deles ao suicídio, além de doloroso, é imperdoável" (Metáforas do Brasil, Léa Carvalho Rodrigues, pág. 122)
Mas o objetivo não era so de enxugar quadros, havia a necessidade de demitir muitos para roubar o suficiente para salvar o BB, por isso ignoraram esses avisos. O enxugamento e matança continuaram por anos a fio. Não sabemos quantos colegas mais se suicidaram ou faleceram de "causas naturais e normais", porque não houve registro, não eram mais funcionários do BB, somente demitidos, excluídos e ignorados até pelas "estatísticas" do governo.
Literalmente, roubaram vidas, acabaram com humildes sonhos, de trabalho, projetos de estudos, formação dos filhos, aposentadoria. Os criminosos das demissões sentiram-se deuses, com poder de decisão sobre a vida e a morte, quem permaneceria ou quem sairia do BB, e fizeram tudo sem ter nenhuma autorização do povo para tanto, satisfizeram seus mesquinhos interesses políticos e econômicos.
"Quando a verdade é dita, a justiça é feita, mas a mentira produz a injustiça". (Provérbios: 12.17)
criado por schmaedeke
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