DEMITIDOS DO BB

Comentários, depoimentos, sugestões e propostas sobre as demissões abusivas de milhares de funcionários do Banco do Brasil, os Demitidos do BB, visando a reintegração ao BB, restituição da PREVI e reabilitação à CASSI, CAPEC e CARIM.

12/9/08

“METÁFORAS DO BRASIL” - Dra. Léa Carvalho Rodrigues - RESENHA

“DEMITIR E ROUBAR, DEMITIR PARA ROUBAR, ENXUGAR E MATAR, VINGAR-SE  PERSEGUIR POLITICAMENTE, EXECRAR REGIME DE EXCEÇÃO, EXCLUIR DA NAÇÃO”.

 METÁFORAS DO BRASIL - Léa Carvalho Rodrigues  

RESENHA do livro de RODRIGUES, Léa Carvalho - Metáforas do Brasil. Demissões voluntárias, crise e rupturas no Banco do Brasil. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2004, 390 páginas.

Alicia Ferreira Gonçalves - Pesquisadora DCR – CNPQ /FUNCAP

Guilhermo Raul Ruben - Professor Livre-docente - Dep. Antropologia UNICAMP

 Por que pensar a sociedade brasileira a partir de metáforas? Como refletir sobre o dilema brasileiro a partir das metáforas de vida e de morte? Das metáforas que remetem às relações familiares? Das metáforas que remetem aos amores equivocados e às paixões humanas como o amor, inveja e ódio?

    “Metáforas do Brasil” é assim: um estudo etnográfico sobre um processo de mudanças: o Programa de Desligamento Voluntário – PDV, implementado pelo Banco do Brasil em 1995. Um estudo particular que, entretanto, permite-nos realizar uma reflexão sobre as transformações em curso na sociedade brasileira no período em questão, além de abordar grandes temáticas como o poder, a corrupção e o aprofundamento das desigualdades sociais no plano regional. Isso porque a autora toma a empresa como metáfora do próprio País e procede a um estudo aprofundado das mudanças ocorridas no período, relacionando os acontecimentos em torno da empresa àqueles ocorridos na esfera política e econômica do País, ao longo do tempo.

Concentra a análise sobre o PDV do Banco do Brasil, mas os temas que derivam deste evento e os indicativos sobre as relações entre essas medidas e o modelo político econômico adotado para o país, na década de 1990, fazem com que a obra adquira um escopo mais abrangente. Além do mais, trata-se não apenas de um acontecimento efêmero, mas de eventos que, de acordo com a formulação conceitual desenvolvida por Marshall Sahlins, são acontecimentos que adquirem relevância porque se dão na articulação com um dado sistema simbólico.

O PDV do Banco do Brasil – sobretudo pelo lugar que a empresa ocupa na estrutura governamental e por sua representatividade no plano simbólico – causou um forte impacto sobre a empresa, alcançou grande repercussão na mídia escrita e televisiva e se converteu num dos momentos mais dramáticos e marcantes da história do Banco do Brasil.

Para analisar o processo de mudanças no Banco do Brasil, a autora se inspirou no conceito de drama social formulado por Victor Turner. Adota, neste sentido, um referencial teórico e metodológico antropológico clássico que remete às formulações desenvolvidas em torno do estudo dos rituais por antropólogos filiados à Escola de Manchester. Estes, inspirados nos conceitos formulados por Émile Durkheim como coesão social, solidariedade e integração social, e pelos princípios do funcional-estruturalismo desenvolvidos por Radicliffe-Brown e Evans-Pritchard, representaram uma mudança de perspectiva para os estudos antropológicos ao atribuírem um papel político aos rituais, pela dramatização do conflito e reposição do equilíbrio social, sobretudo nas sociedades africanas estudadas por esses antropólogos, durante a dominação da administração colonial inglesa. A questão central subjacente aos estudos desses autores era saber como operava a dinâmica da mudança social e do equilíbrio, da ruptura e da continuidade nas chamadas sociedades sem Estado.

De forma similar, a autora etnografou o PDV a partir do conceito de drama social formulado por Victor Turner, percebendo o evento como um processo marcado por fases seqüenciais bem delimitadas:ruptura, crise, desenvolvimento de mecanismos de resolução dos conflitos e, por fim, o desfecho que, no caso, significou uma ruptura radical e irreversível entre trabalhadores e empresa. como os mecanismos de ajuste operavam para solucionar esta tensão, fosse por meio do ritual ou de instâncias legais, sendo a ruptura, na maioria das vezes, funcional ao reafirmar a identidade, os valores e as tradições tribais, no caso do Banco do Brasil, a ruptura com um dos valores tradicionais como era a estabilidade pretendeu a reposição da unidade e da identidade em outros termos. O Banco do Brasil apresentou-se à sociedade brasileira não mais como um banco social, como fora outrora definido pela empresa e assimilado pelos funcionários, a ponto de tornar-se um dos valores basilares das relações de trabalho, mas afirmando-se “modernamente” como um banco que opera no mercado, conectado por meio das novas tecnologias ao sistema financeiro transnacional.

   Neste cenário, a ruptura de valores tradicionais, desempenhou um papel central nas representações e nas ressignificações elaboradas pelos funcionários sobre o processo de mudanças vivenciado intersubjetivamente. Estes expressaram seus sentimentos em relação ao PDV e ao Banco, por meio de um conjunto de metáforas. Metáforas familiares e amorosas para representar as relações construídas ao longo do tempo entre funcionários e empresa; metáforas da nação para expressar a representatividade do banco no plano nacional e no imaginário social; metáforas de vida e de morte para representar as rupturas e perdas provocadas pelos acontecimentos. Esse conjunto de metáforas, que se apresentam no texto de forma articulada, mostrou que, ao contrário do esperado pela empresa, o PDV do Banco do Brasil gerou um período extenso de crise interna e de perdas no plano simbólico.

A abordagem metodológica permitiu à autora articular o PDV a processos mais amplos como a reestruturação do sistema financeiro nacional ante as novas dinâmicas do capital financeiro internacional, a reestruturação organizacional nos bancos articulada à introdução maciça de novas tecnologias de base telemática e também a cultura política que permeia as relações de poder na sociedade brasileira. Isso porque a autora considerou que uma análise do processo de mudanças no Banco do Brasil, ao privilegiar o momento do PDV, deveria levar em conta o quadro contextual e todo o emaranhado de interesses que emergiram naquele momento. Dessa forma, além de esclarecer os acontecimentos de forma contextualizada e articulada, o estudo forneceu um conjunto consistente de elementos analíticos para um melhor entendimento da dinâmica da estrutura de interesses e da articulação de forças no cenário nacional.

Segundo a autora, por meio dessa metodologia foi possível realizar uma melhor sistematização dos acontecimentos, detectando os principais atores envolvidos, os interesses emergentes e as articulações entre eles. Por outro lado, ressalta a autora que a utilização do conceito de drama social não se restringiu à aplicação de um modelo, mas realizou um avanço sobre as propostas de Turner, expandindo o campo de ação do drama, considerando as diferenças de poder entre as partes envolvidas e, dessa forma, ultrapassando os limites presentes na abordagem realizada pelo autor. Articulando a formulação conceitual de drama social à de análise situacional, na perspectiva de Van Velsen (1987), procurou atingir uma compreensão mais abrangente do processo. Para este fim, tomou como princípio a contextualização do evento, a articulação entre sincronia e diacronia, a especificação dos atores e a percepção da extensão do campo de relações, disputas e interesses relativamente a cada variável analisada.

  Nesse sentido, a utilização da metodologia e dos referenciais antropológicos pretendeu construir a etnografia que possibilitasse apreender os acontecimentos em sua plenitude, atentando para a forma como os mesmos repercutiram sobre uma variada gama de situações individuais e coletivas e como os diferentes agentes se colocaram no decorrer do processo, que estratégias desenvolveram; quais idéias, imagens, princípios, valores se tornaram manifestos e o que esse processo gerou para as diversas partes em confronto naquele momento e para o conjunto da empresa. Além de contribuição aos estudos sobre empresas, organizações e processos de mudanças vividos na atualidade, a autora privilegiou em toda a análise do processo de mudanças ocorrido no Banco do Brasil as variáveis culturais, a dimensão simbólica dos acontecimentos, sua manipulação por grupos específicos. Tais recursos permitiram uma maior abertura para a articulação entre o específico e o geral, na medida em que os acontecimentos no Banco do Brasil, naquele momento, só se tornavam compreensíveis pela consideração das relações entre o Banco do Brasil, Governo, grupos de interesse a ele articulados e a compreensão de sua posição dentro desse conjunto de relações.

Afirma a autora, na conclusão do livro, é pelo entendimento das alterações no estatuto dessas relações e, portanto, da crescente subordinação do Banco do Brasil, ao longo do tempo, ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central, que se pode entender que o Programa de Ajustes do Banco do Brasil tenha sido formulado especialmente na órbita do Governo que, naquele momento, enfrentava as disputas, no campo político, para a quebra da estabilidade na administração pública. Por outro lado, afirma que “é pela percepção da nova configuração dada ao setor financeiro nacional e, dentro desta, o papel conferido ao Banco do Brasil e aos demais bancos públicos e estatais, que é possível entender aqueles acontecimentos específicos como parte de um projeto maior relacionado a interesses de governo”. Referia-se a autora à opção governamental pelo fortalecimento da banca privada nacional, a partir de 1995, com a concentração do setor nas mãos dos grandes grupos, a abertura à presença estrangeira e o enfraquecimento do setor bancário público e estatal.

   Por fim, conclui a autora que é somente pelo entendimento da posição do próprio País no cenário internacional e de sua posição de país devedor e de crescente subordinação às agências financeiras internacionais, que se compreendem os acontecimentos então ocorridos no Banco do Brasil como parte dos movimentos ditados pela adoção de um modelo político-econômico para o País que, em suma, sofria fortes pressões das agências externas.

Assim, a opção por uma etnografia construída a partir das metáforas acionadas pelos diferentes atores, naquele momento, permitiu a compreensão da repercussão dos acontecimentos na empresa. Mas, sobretudo, permitiu a percepção da natureza dos vínculos construídos ao longo do tempo entre empresa e funcionários, os valores que sustentavam essas relações, bem como os conflitos e as clivagens existentes. Também sobre como esses vínculos, no campo simbólico, representavam relações de outra natureza, como aquela dada pelos laços entre os funcionários, a empresa e a nação, de forma que a identidade com a empresa era referida à identidade com o próprio País. As metáforas permitiram ainda entender o significado das rupturas como a quebra desse conjunto de relações: para os funcionários a interrupção de um projeto de vida centrado no Banco do Brasil e, para o País, um enfraquecimento da atuação social do banco e um aprofundamento das desigualdades regionais.

  E ainda que se trate de um tema árido e de um livro feito a partir de uma pesquisa acadêmica aprofundada, sustentada por um conjunto de dados extenso e variado, o texto é claro e fluente. A profusão de dados, o rigor analítico e a força dos argumentos não escondem, por outro lado, a paixão com que a autora o escreveu e a ousadia com que abordou temas delicados como aqueles relativos às redes de interesses em jogo e os escândalos e denúncias de corrupção que apontavam canais de conexão direta com o Palácio do Planalto.

O livro está estruturado em três capítulos. Na introdução, a autora recupera alguns momentos da trajetória da empresa na qual foi dada atenção especial ao papel do Banco do Brasil em diferentes momentos históricos, sua atuação, seu funcionamento e dinâmica interna - ao mesmo tempo em que procura articulá-los a momentos importantes da história do País e do processo de sua constituição como nação. A pretensão é indicar os aspectos mais marcantes relacionados ao processo de mudanças sob análise, de forma a elucidar a sua compreensão e nele privilegiar temas que colocam em evidência a importância da dimensão cultural e dos elementos simbólicos que dizem sobre a representatividade da empresa para governo, funcionários e sociedade brasileira em geral.

O primeiro capítulo apresenta uma descrição detalhada dos acontecimentos que envolveram o Banco do Brasil durante os trinta dias de vigência do Programa de Desligamento Voluntário. Em seguida, a partir do relato e dados de pesquisa, a autora destaca as principais idéias e noções que nortearam todo o programa – modernização, mudanças, crise e ruptura - discutindo-as no plano teórico.

  O segundo capítulo apresenta a etnografia mais acabada do evento. Ali se articulam o recorte empírico, analítico, metodológico e a proposta de discussão teórica. É onde o evento poderá ser percebido de uma forma mais consistente e sistemática, ao mesmo tempo em que a opção de uma abordagem por temas, provenientes das metáforas que emergiram dos acontecimentos, permite percebê-lo em sua dimensão simbólica. Metáforas do universo familiar e das relações amorosas, outras expressas na simbologia sobre a idéia de nação, outras ainda referidas às imagens de vida e morte foram acionadas naqueles dias do PDV para expressar a situação de passagem vivida por todos. Ao mesmo tempo, externavam os sentimentos dos funcionários e a postura da empresa, o papel do Banco do Brasil para diferentes atores sociais e aquele delineado pelo Governo em acordo com o modelo político-econômico adotado para o País.

No terceiro capítulo, a autora realiza um trabalho mais sistemático com os dados, articulando o material qualitativo a uma documentação diversificada, que vai desde os dados colhidos dos almanaques de pessoal editados pela empresa, relatórios e publicações oficiais, aos processos existentes no Ministério Público do Trabalho – MP e ao material de imprensa. Nesta parte ficam claras as estratégias dos diferentes atores que fizeram parte do drama, e é quando a autora consegue responder às questões colocadas no início da obra. Analisando as estratégias da empresa e dos funcionários, bem como a atuação das entidades representativas, da classe política e do Ministério Público, durante o processo, busca, ainda, mostrar a desigualdade na correlação de forças entre os atores envolvidos.

   No último item, são feitas algumas considerações sobre o resultado do processo, sua efetividade, o teor das mudanças e seus custos financeiros e humanos. Enfim, o que permaneceu ou foi ressignificado e o que isso representou para o conjunto da empresa, enfatizando os diferenciais de poder entre diferentes atores e revelando as continuidades nas práticas nefastas constitutivas das estruturas de poder em nosso País.

Gostaria de destacar, ainda, que a autora articulou em sua análise, simultaneamente, o debate teórico da sociologia do trabalho, da economia e da ciência política, de forma que o estudo etnográfico atende interesses empíricos e teóricos não apenas dos cientistas sociais em particular, mas de todos aqueles que se interessam pelos processos sociais contemporâneos, em especial as mudanças ocorridas no País, nos últimos anos.

Deste modo, embora a autora eleja como referente empírico o estudo de uma particularidade, essa particularidade não se encerra em si mesma. O enfoque etnográfico adotado lhe permitiu alçar vôos mais amplos quando, por exemplo, articula analiticamente o PDV ao sistema financeiro mundial, demonstrando a inter-relação entre fatores localizados e transnacionais e o impacto dos acontecimentos nas pessoas de “carne e osso”. Ao recuperar historicamente a atuação do Banco do Brasil desde a sua fundação pelo príncipe D. João, em 1808, a etnografia explicitou as ligações seculares do Banco do Brasil com o Estado e a sociedade brasileira, via política financeira, articulando sincronia e diacronia, estrutura e processo, estrutura e ação e estrutura e evento, buscando os sentidos do PDV na história, na ação, nos interesses e estratégias em jogo e também na tradição cultural da instituição.

  Ora, o que o PDV pressupunha era uma mudança cultural, uma mudança nos valores, uma formulação empírica exemplar de uma lógica de mercado que se vale da ordem cultural. No entanto, como bem sabem os cientistas sociais em geral, e os antropólogos em particular, mudanças culturais não ocorrem por decisões governamentais ou da cúpula de empresas e organizações. Porque, e isto é muito importante de se frisar, valores só existem como variáveis culturais quando são compartilhados, quando são construídos na interação. Ou seja, não cabe de forma alguma a idéia, muitas vezes corrente em algumas linhas teóricas - sobretudo as que se dedicam aos estudos denominados de cultura organizacional - a idéia de que culturas podem ser manipuladas segundo a vontade da empresa, a partir da imposição de novos valores.

FONTE: SBS - Sociedade Brasileira de Sociologia

 

 

criado por schmaedeke    14:01:38 — Arquivado em: Demissão e Apropriação Indébita, Perseguição Política e Regime de Exceção

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